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"O dia da Consciência Negra veio para fortalecer nossa identidade"

*Texto publicado anteriormente no Blogspot de Oliveira Silveira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Naiara Rodrigues Silveira, filha única de Oliveira Silveira



Em 1971, um dos fundadores do Grupo Palmares declarava o 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, como a data máxima da comunidade negra brasileira. Este idealizador era Oliveira Silveira, pesquisador, poeta e historiador gaúcho. Sete anos depois, o 20 de novembro foi elevado ao Dia Nacional da Consciência Negra.

Foi neste ambiente de ativismo e contestação que Naiara Rodrigues Silveira, 40 anos, cresceu. Filha de Oliveira Silveira, o engajamento ao Movimento Negro foi uma conseqüência natural. Professora e supervisora de uma escola estadual, ela também é secretária geral da Associação Negra de Cultura (ANdC), fundada por seu pai em 1987.

Naiara já foi muito atuante no MN e, com a morte do pai em janeiro deste ano, teve sua atenção voltada para a organização do acervo de sua obra. O livro de Poemas de Oliveira Silveira, que será lançado na sexta-feira (20/11/2009), também contou com a participação de Naiara em sua elaboração.

Imprensa SJDS - Por que o movimento negro gaúcho resolveu buscar uma nova data para reverenciar a luta dos negros contra o regime escravagista, em substituição ao 13 de maio?

Naiara Rodrigues Silveira - O 13 de maio representa para a população negra um grande engodo. Uma lei que trouxe a liberdade de direito, mas não de fato. Os negros chegaram ao Brasil "sequestrados" da África, sem absolutamente nada. Aqui, construíram o país. Com o advento da abolição da escravatura, foram "despejados", sem direito a nada (educação, propriedade, trabalho, etc.), enquanto os imigrantes receberam vários incentivos para virem para o Brasil: terras, gado, escola, entre outros. Portanto, essa data não trouxe dignidade ao povo negro.

Imprensa SJDS - Qual a importância de comemorar o Dia da Consciência Negra?

Naiara Rodrigues Silveira - Ser negro é muito além do tom de pele. É um jeito de ser, de viver e de entender a vida. Ter consciência de tudo isso nem sempre é um ato fácil em uma sociedade racista como a nossa. É muito difícil ser negro e assumir a negritude. É uma questão de auto-estima. Trezentos anos de escravidão dizendo que "tu não és gente" não poderia dar em outra coisa.

O Dia da Consciência Negra veio exatamente para marcar uma tomada de consciência de quem nós somos, através do fortalecimento de nossa identidade. Ainda não temos muito para comemorar, embora o Movimento Negro Gaúcho seja um dos mais atuantes do país. Temos muito a conquistar no campo da eqüidade e igualdade de oportunidades. Enquanto não chegamos lá, devemos comemorar o Dia da Consciência Negra, levando nossa resistência, mas também nossa cultura, que é a base da cultura brasileira.

Foi através da pesquisa do Grupo Palmares, onde militava Oliveira Silveira, o idealizador do "20 de Novembro", que essa data foi escolhida por ser o possível dia de morte de Zumbi dos Palmares. Nesta data comemoramos não a liberdade, mas a tomada de consciência de nosso povo sobre seu valor e sua contribuição a este país. Hoje, repetimos isso em memória de nossos ancestrais.

Imprensa SJDS - Você acredita que as comunidades negras aqui do Estado conseguiram preservar as suas características culturais, como a religião, por exemplo?

Naiara Rodrigues Silveira - Certamente, embora com muita dificuldade. Dizem os estudiosos que temos peculiaridades nos cultos africanos daqui que não são encontradas em outras partes do país. Temos duas grandes vertentes: uma definida como Angola Conguense e outra Yorubá ou Gegê Nagô, influenciada pela Nigéria e, em menor escala, pelo Benin. A presença destas religiões é ostensiva em todo o Estado. O Rio Grande do Sul possui o maior número de terreiros do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Porém, acredito que nossa religião esteja ameaçada pela intolerância de algumas igrejas, principalmente pelas neo-pentecostais. A comunidade negra religiosa resiste bravamente, com lideranças de expressão no cenário religioso nacional. Os negros cultores destas religiões, que ainda mantém a autenticidade em suas atitudes e moradias, devem ser protegidos desta ameaça, assim como toda cultura afro-gaúcha.

Imprensa SJDS - Como você vê a figura do negro na identidade do gaúcho?

Naiara Rodrigues Silveira - A população negra no Brasil é de 48%, conforme pesquisa de auto-declaração do IBGE, mas, na verdade, sabemos que é bem maior. No Estado, ela chega a aproximadamente 16%, mas sua influência está emaranhada em todos os segmentos.

A figura do negro sempre foi vista como "menor" na construção da identidade do gaúcho. Isso se deve a uma postura preconceituosa em que somente as culturas alemãs, italianas, polonesas e outras, de origem branca, são consideradas como formadoras da comunidade gaúcha. Hoje sabemos da influência do negro em toda cultura sulista.

Ainda temos muito que caminhar e isso começa na escola, que ainda não conta a história do negro no RS e de seus heróis. Por isso, desejamos a implementação da lei que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira".

Imprensa SJDS - Como você avalia a atuação do Movimento Negro hoje e a inserção do negro na sociedade brasileira?

Naiara Rodrigues Silveira - O Movimento Negro vem crescendo em número, organização e ação. Nas décadas de 60 e 70, o movimento era de denúncia e resistência; hoje, ele é também propositivo. Graças a ele, houve avanços significativos em diversas áreas e temos adquirido, embora timidamente, a visibilidade e a inserção na sociedade. A conquista das ações afirmativas é uma delas. A luta não pára, irá continuar até que as diferenças se unam e não separem. Ser diferente sim, mas com direitos iguais. 

 

 

 

 

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